Postagens

Dos restos, um recomeço

Imagem
Dárcio Coyote Chaves Qualquer um, que porventura se pusesse a olhá-lo, deste modo sentado, joelhos unidos, abraçando-os braços e sobre todos, ébria, a cabeça, pensaria: é dor, frustração. É apenas mais um derrotado. Indica-o a cabeça caída. Em breve, junto à porta de embarque do vagão das bestas e aberrações, ele ainda haveria de lembrar-se dos passos e dos lamentos que com eles passeavam, discorrendo sobre aquela cabeça de uma tonelada. Lembra-se ia, certamente, de um passo vacilante que, por haver tropeço em sua bagagem, acabou por despertá-lo de seu profundo aterramento, permitindo-lhe que ainda ouvisse o trapalhão desbocado, preferindo-lhe mil impropérios por estar obstruindo o fluxo dos apressados e espremidos pedestres (é assim no centro de São Paulo, o tempo todo as pessoas se acotovelam como animais encurralados). Levantou-se, pegou a bagagem, era um estojo de violão, sentiu-se mesmo El Mariachi e riu de si próprio enquanto se voltava em direção à estação da Luz, não e...

Uma certa função dos universais

Imagem
Reinaldo Sampaio Pereira Você já se questionou sobre como é possível a aquisição e a transmissão do conhecimento? Sobre quais as condições necessárias para podermos adquirir e transmitir conhecimento? Por que conseguimos transmitir certo tipo de conhecimento e os animais irracionais não? Atribuir à razão o que nos possibilita adquirir e transmitir conhecimento parece consistir em boa estratégia para responder tais questões, pois apresenta a faculdade em muito responsável pela aquisição e transmissão do conhecimento. Mas essa resposta parece insuficiente para quem espera saber como opera essa faculdade, de modo a nos possibilitar certo tipo de operação que não é própria aos animais irracionais. A Filosofia possui uma disciplina, a Teoria do Conhecimento, que examina, de múltiplas perspectivas, em discussões bastante complexas, o problema sobre como é possível conhecer. Atentemos para um dos elementos de uma das muitas explicações da Teoria do Conhecimento sobre o problema de ...

A viagem de Platão a Siracusa

Imagem
Reinaldo Sampaio Pereira Em um dos seus textos menos (mas muito) conhecidos, a carta sete, Platão revela seus anseios, na juventude, de entrar para a política, assim que fosse possível, e revela também profundo descontentamento e decepção com o julgamento que Sócrates teve, tendo sido condenado pela cidade e conduzido à morte por envenenamento, bebendo cicuta. Também na carta sete, o filósofo narra sua viagem a Siracusa. Platão para lá foi com o intento de fundar a cidade idealizada em um dos seus mais famosos textos, a República . Sendo um autor que dispensa apresentações, com uma vasta obra que se estende por vários domínios da Filosofia, como a Metafísica, a Ética e a Teoria do Conhecimento, Platão também se notabilizou pelas suas investigações acerca da Política, tendo sido crítico de alguns regimes políticos gregos, como o dos trinta, que quase levou Sócrates à morte, alguns anos antes da sua condenação. Em alguns dos seus diálogos, como ...

Entrevista

Imagem
Confira a entrevista com o jornalista e editor da revista Griffe, Flavio F. A. Andrade, sobre o lançamento do livro O Feitiço do Cinema – ensaios de Griffe sobre a sétima arte. – Jornal A Verdade Regional. Como surgiu a idéia do livro ou, ainda antes, da revista Griffe? A revista Griffe surgiu com o objetivo de propiciar uma visão crítica da realidade, focando diversos assuntos de cultura geral. A ideia é selecionar especialistas das mais diversas áreas para que possam falar, com propriedade, das pautas propostas pela revista. Sendo assim, a revista Griffe tem a pretensão de ser referência em alguns assuntos como educação, arquitetura e temas que envolvem a teoria e a produção de cinema. A partir desta filosofia, fizemos uma parceria com a Escola Crítica de Cinema de São Paulo, através dos esforços do professor, pesquisador e doutor Juan Guillermo D. Droguett, e produzimos em conjunto esta coletânea que ensina de forma dinâmica a crítica, teoria e produção cinematográfica. Para melhor ...

Editorial

A edição de número 25 da revista Griffe é uma realidade. Surge renovada, com mudanças de conteúdo, de autores e um novo design, mais leve — mais objetivo. Tudo para facilitar a leitura e enriquecer ainda mais esta publicação de conteúdo jornalístico-acadêmico. Mais importante que a embalagem é o conteúdo, o que está escrito em cada uma destas páginas. E para esta edição publicamos abordagens inéditas sobre educação, ética, cinema, mídia, fotografia e muitos outros assuntos produzidos pelos mais diferentes profissionais da academia e do jornalismo. A revista Griffe está dividida em duas partes, com trabalhos distintos na forma como foram concebidos, mas interligados em suas temáticas. A primeira parte engloba os textos jornalísticos curtos, matérias e crônicas. A segunda parte abrange os textos de análise, artigos acadêmicos redigidos com base em pesquisas, com o objetivo de proporcionar ao público-leitor uma fonte segura de conhecimento a respeito de vários seguimentos, tais como cul...

O país do futebol

ANDRÉIA T. COUTO Era a segunda vez que eu fazia uma incursão a pé pelos arredores da cidade. Ainda não havia saído das cercanias do hotel, e estava ansiosa para fazer um reconhecimento da área, explorar os novos ares, ver o que os meus olhos ansiavam ver: o diferente. O Agasaro Hotel, localizado em uma avenida próxima ao aeroporto Internacional de Kigali, possibilitava caminhadas fora dos padrões turísticos. Enveredando por algumas vielas que nasciam na avenida, tortuosas e sem calçamento, fui parar em um campo aberto, de onde podia ouvir sons de crianças gritando. Aos poucos, à medida que me aproximava, reconheci imediatamente o motivo da gritaria e euforia: um grupo de crianças, 20 para ser exata, corria de um lado para outro, aparentemente de forma desordenada, através de um campo de terra batida, sem trave nos lados opostos ou nenhuma marcação no solo do terreno, mas que caracterizava um campo de futebol. Sentados nos barrancos ao lado do campo, ou em pé em gritaria com os jogadore...

O aquecimento global e a invenção do fim do mundo

FÁBIO TOZI Embora se diga em toda parte que vivemos a democracia, o que vemos, cada vez mais, é, como dizia Milton Santos, o reinado do pensamento único, que tem na aceitação inquestionável da globalização sua manifestação mais bem acabada. Os modos diferentes de pensar são desqualificados a priori, criminalizados, e acusados de perigosos ao rumo correto do país. Acreditamos, porém, que o avanço de processos democráticos deva, ao contrário, atribuir legitimidade às discordâncias, mostrando que o futuro não é uma reprodução do presente, mas uma escolha entre as muitas possíveis. As questões ambientais, e especialmente a discussão sobre o aquecimento global, temários exaustivamente cotidianos, são, com suas particularidades, doutrinadas pelo domínio de um pensamento único, ignóbil, avesso ao debate e à divergência e, por isso, incapazes de superar o senso comum e de conduzir a um esclarecimento sobre o mundo. O movimento ambientalista se trans-forma em um pensamento único por ter atingid...